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Polo moveleiro de Marco é reconhecido como um dos maiores do Norte e Nordeste.

07 de abril de 2010.

Salto de qualidade

Distante 234 quilômetros de Fortaleza, Marco, com cerca de 23.000 habitantes, na região Noroeste do Ceará, era há 14 anos apenas mais um pequeno município do estado que sobrevivia da agricultura e da renda gerada pelas aposentadorias e o pagamento do funcionalismo municipal. Hoje, graças à visão empreendedora e à ousadia de pequenos empresários, é reconhecido como um dos maiores polos moveleiros do Norte e Nordeste, com ramificação por outras regiões do país. De acordo com dados do Sindicato da Indústria Moveleira do Estado do Ceará (Sindmoveis), Marco abriga 29 empresas, oferecendo aproximadamente 6.600 empregos entre diretos e indiretos. Para se ter uma ideia desses números, somente a folha de pagamento mensal gira em torno de R$ 1.173.000.

Imagem 101No entanto, a consolidação rápida dos empreendimentos não diminuiu o elã dos empresários: eles esperam para os próximos cinco anos que o local dê um salto bem maior em termos de estrutura e qualificação. Segundo o presidente do Sindmoveis, Geraldo Bastos Osterno Júnior, tal impulso está fincado nos projetos em andamento ou nos previstos para o município. Uma dessas iniciativas é a instalação de um centro tecnológico. No segundo semestre de 2009, o governador Cid Gomes esteve em Marco e mostrou-se interessado no projeto. Em fevereiro último, o trabalho foi concluído pelo sindicato e entregue ao governador. Geraldo Osterno diz que o centro tecnológico deverá reunir empresas e espaços para treinamento e apresentação de produtos.

Mas o interesse demonstrado pelo governador em relação ao polo moveleiro, inclui também a possibilidade de ações de incentivo fiscal via Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI) para as empresas instaladas ali. Na área fiscal, o sindicato pleitea a retirada da substituição tributária de quatro insumos da indústria moveleira: madeira, tecidos e couros sintéticos para sofás; percinta e linhas de costura. Outra iniciativa com potencial para melhorar a qualificação do polo moveleiro é a possibilidade, ainda este ano, de o setor de mobiliário cearense vir a ser contemplado com um Plano Setorial de Qualificação (Planseq). A proposta foi entregue em janeiro pelo presidente do Sindmóveis ao secretário executivo do Ministério do Trabalho e Emprego, André Figueiredo. Os Planseqs são parte integrante do Plano Nacional de Qualificação (PNQ), sendo instrumento complementar aos Planos Territoriais de Qualificação (Planteqs), orientados ao atendimento transversal e concertado de demandas emergenciais, estruturantes ou setorizadas de qualificação, identificadas a partir de iniciativas governamentais, sindicais, empresariais ou sociais, cujo atendimento não tenha sido passível de antecipação pelo planejamento dos entes federativos ou municipalizados.

De acordo com Geraldo Osterno, os projetos em andamento e os previstos são fundamentais para o polo dar um grande salto, por ele chamado de "pulo do gato". Segundo o dirigente classista, o município de Marco está pronto para esse novo momento, citando que as empresas estão em atividade no polo, em média, há dez anos, superando a fase mais difícil de viabilização de um negócio. "Hoje temos empresas com 700 funcionários e outras com 30 convivendo muito bem, sem o perigo de as grandes esmagarem as pequenas", ressalta. Ele credita o fato à visão de Arranjo Produtivo Local (APL) que as unidades fabris da região sempre mantiveram. Os APLs constituem empresas organizadas em uma lógica própria de cadeia produtiva e mercado, articuladas para ações de cooperação, capacitação e desenvolvimento mútuo integrado, com apoio de instituições diversas conforme as competências básicas necessárias a esse desenvolvimento. Microempresas e empresas de pequeno porte que participam de APLs têm acesso facilitado a mão de obra, novas tecnologias, fornecedores e distribuidores.

Desde seu inicio, as empresas em Marco apresentaram especialização produtiva, sem deixar de lado um forte vínculo de articulação e interação entre elas. Isso não só facilitou a diminuição de custos, com a cooperação na parte comercial para a compra de matéria-prima ou viagens a feiras, como manteve abertas a cooperação e a aprendizagem conjunta. Geraldo Osterno cita como fundamental nesse arranjo a ligação mantida com instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequena Empresas (Sebrae), o SENAI/CE e atores locais, como a Universidade Vale do Acaraú (UVA). Ele lembra que essa relação entre os empresários sempre foi muito estreita, já que os primeiros empreendedores, em sua maioria, vinham de uma mesma família. No começo, os pequenos produtores desenvolveram hábitos de encontros informais para a troca de informações sobre o setor, a produção e fornecedores, o que fortalecia mais ainda os laços familiares. O passo natural seguinte seria o associativismo.

Geraldo Osterno conta, todavia, que a montagem do APL se deu com recursos dos próprios empresários (ele era o prefeito de Marco na época em que o polo começou a ser estruturado). O resultado desse investimento próprio acabou por gerar empatia dos moradores da cidade com o polo moveleiro, pois contribuiu para gerar renda e melhorar a qualidade de vida dos habitantes do município. O fato é mostrado na coleção do Sebrae História de Sucesso, tratando sobre o polo. Publicada em 2007, a obra ressalta que "com a deflagração do processo industrial, Marco se tornou um dos principais fornecedores de alimentos da região do Baixo Acaraú. Em consequência desse sensível crescimento econômico, também houve a implantação hoteleira. E, além de gerar emprego para os habitantes do município, ofertava empregos para pessoas de outras localidades".

Segundo a publicação do Sebrae, o crescimento do parque fabril foi tão expressivo que Marco se configurou como a única localidade da região à época a ofertar vagas de trabalho na iniciativa privada. "Algumas empresas de móveis passaram a oferecer ônibus para o transporte de trabalhadores de outras cidades, principalmente de Bela Cruz (distante oito quilômetros)", relata a consultora do Sebrae Marta Campelo, que elaborou um estudo sobre o APL moveleiro de Marco.

Ousadia e oportunidade

A história do polo moveleiro de Marco pode ser resumida em duas palavras: ousadia e oportunidade. Morador da cidade e proprietário de uma fábrica e de uma loja em Fortaleza com o irmão Jacaúna Aguiar, o empresário e deputado estadual (PSDB) Rogério Aguiar precisava de fornecedores para dar continuidade aos negócios. Resolveu então incentivar o surgimento de pequenos negócios do ramo no município, garantindo inclusive a compra de toda a produção. Com o apoio do então prefeito, Geraldo Bastos Osterno Júnior, foram surgindo unidades fabris de diversos tipos de móveis. Na mesma época, foi desenvolvido o Programa de Compras Governamentais do município, que consistia na aquisição de carteiras para as escolas estaduais.Imagem 102

Como prefeito, Geraldo Osterno apostou no incentivo aos pequenos fabricantes por meio da liberação de verba para a compra de matéria-prima a fim de que pudessem fabricar as carteiras. Com a concorrência acirrada e tendo que enfrentar empresas tradicionais de base tecnológica mais avançada, Rogério Aguiar resolve transferir a fábrica de Fortaleza para Marco, mudando a feição do então emergente polo. O que poderia ser um baque para os fabricantes – o principal cliente não mais existia – acabou se transformando em uma nova oportunidade. Segundo o presidente da Fabricantes Associados de Marco (Fama), Leonardo Aguiar, no início a situação ficou difícil. "Mas sempre acreditamos na nossa força e na união", resume.

A partir dessa visão, os empresários foram em busca de outros mercados e acabaram por apostar em uma estratégia para enfrentar a concorrência – a qualidade. "Topamos o desafio de fazer um produto que fosse referência em termos de qualidade", diz Leonardo. Outro diferencial é que, com a perda do principal comprador, era preciso ir atrás de novos mercados. Nesse aspecto, mesmo deixando de ser o maior comprador, Rogério Aguiar, ao expandir seus negócios pelo Norte, Nordeste e outras regiões do país, acabou difundindo a produção do polo de Marco. A união entre os moveleiros da região funcionou também como uma espécie de pacto. Hoje, por exemplo, a fábrica Ruah, de Rogério Aguiar, só produz no Brasil para a Jacaúna Decorações, de sua propriedade. Já as demais se especializaram em tipos específicos de produtos.

Leonardo Aguiar, todavia, considera que o associativismo foi fundamental para a consolidação e a sobrevivência dos pequenos empresários. Enquanto grandes empresas, como a Ruah, Osterno Móveis e a Madressilva, bancavam com recursos próprios consultorias, entre outros tipos de aperfeiçoamento, as menores encontraram no Sebrae a possibilidade de se ajustarem às necessidades do avanço tecnológico. Com as ações do associativismo, o resultado foi o crescimento do polo e a maior visibilidade dos móveis do município de Marco, hoje uma referência no país.

Maior fábrica do NE

Em 1970, deputado estadual Rogério Aguiar deixa a cidade de Marco em busca de melhores dias em Fortaleza. Trabalhou na capital cearense como frentista e office-boy. Em 1975, inaugura uma pequena marcenaria. No começo, a produção era toda encomendada. Com o tempo, em sociedade com o irmão Jacaúna, abre uma fábrica e uma loja de decoração. No ano de 1992, passou a fazer negócios com a primeira fábrica de Marco, a Madressilva, que produzia móveis semifaturados, com o acabamento sendo feito por sua empresa em Fortaleza.

O crescimento da demanda fez com que Rogério passasse a incentivar os conterrâneos de Marco a também apostarem no ramo, garantindo até certo tempo a compra da produção. A demanda ocorreu por conta da conquista de outros mercados pela Jacaúna, com a instalação de lojas nas regiões Norte, Nordeste e em outras partes do país. Atualmente a Jacaúna está em 14 estados brasileiros. São 20 lojas e filiais em todas as capitais do Nordeste, Belém, Manaus, Brasília, Goiânia e Curitiba. Para atender a sua atual necessidade de vendas, a Jacaúna conta com a fábrica Ruah Indústria e Comércio de Móveis, instalada na entrada da cidade de Marco. No ano passado, a Ruah também começou a exportar, iniciando por Portugal.

A empresa é a maior fábrica de móveis do Nordeste, contando atualmente com 700 funcionários e frota de 12 caminhões que periodicamente repõem seu próprio estoque pelos 14 estados. Além de ser a maior fábrica, os móveis produzidos pela Ruah e vendidos na Jacaúna são considerados de alto padrão, destinados a público com perfil de classe média alta. “No Norte e no Nordeste, os melhores móveis são os nossos”, diz o industrial. Misto de empresário e político, ele diz que se orgulha de ter contribuído para a criação do polo moveleiro e também acha que o segmento está prestes a dar um novo salto. “Nós, empresários de Marco, fizemos praticamente tudo sozinhos. Agora é que estão chegando os incentivos”, finaliza Rogério Aguiar.

Mercado externo

Ao lado de Rogério Aguiar, o presidente do Sindmoveis, Geraldo Osterno, foi um dos principais incentivadores da instalação do polo moveleiro de Marco. Dono da Osterno Indústria de Móveis, foi ele também o primeiro empresário cearense a enfrentar o desafio do mercado externo: exportou para a Itália, considerada o berço do design de móveis no mundo. As vendas para o mercado externo começaram em 1998, tendo passado pela carteira de clientes da Osterno Móveis compradores de Cuba, México, Portugal, Porto Rico, República Dominicana e Estados Unidos. Com a exportação, a Osterno acabou por dar mais visibilidade aos móveis fabricados no polo.

Para Geraldo Osterno, porém, o sucesso se deve ao fato de as empresas não competirem entre si, ocupando nichos diferentes. Isso, na sua visão, permite que não haja disputa por preços e todos podem se ajudar. Mesmo assim, ele considera que as empresas ainda carecem de um melhor planejamento financeiro e de gestão e poderiam estar investindo mais em design.

Citando o próprio exemplo, Geraldo Osterno diz que, no início das atividades, chegou a contratar um design italiano e, posteriormente, profissionais especializados nas áreas de finanças e produção. Ele entende ainda que é preciso estar sempre atento às novidades em feiras, revistas especializadas e eventos do setor. Como primeiro do segmento a exportar no Ceará, o empresário aprendeu que é primordial aprender com o dia a dia. Atualmente, com o dólar baixo, não é compensadora a venda externa. "O mercado interno é a bola da vez", ressalta. O nome conquistado no mercado externo, porém, tem suas vantagens. No início deste ano, a Osterno Móveis fechou um contrato com uma rede de hotéis para mobiliar os quase 500 leitos em uma praia do litoral cearense. Também estão engatilhados contratos com outros empreendimentos do ramo no litoral do Rio de Janeiro e da Bahia. No caso do Ceará, a receita praticamente garantiu o faturamento de quase a metade do ano.

Gerente técnico

Imagem 103Município com poucas opções de trabalho, Marco oferece, por meio do polo moveleiro, a chance de os moradores desenvolverem uma profissão e se especializarem cada vez mais. É o caso de Francisco Jordene Silveira, 33. Desde 1997 na Osterno Móveis, antes ele era trabalhador terceirizado da prefeitura, onde atuava como agente da antiga Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) e à noite dava aulas em unidades escolares da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (Cenec).

Ao deixar a prefeitura, acabou encontrando emprego na Osterno Móveis, praticamente no início da empresa, atuando como cortador de vidro (vidraceiro). Com o tempo, e interessado em aprender, passou por várias funções na empresa. "Trabalhei na expedição, embalagem e montagem de móveis", lembra Jordene. Ao ter início o processo de exportação, foi deslocado para o setor de acabamento, e, depois, para a unidade de planejamento, controle e produção. Na sequência, aprendeu a mexer com o autocad (sistema que permite o desenho arquitetônico de peças). A ascensão profissional sempre foi perseguida por esse jovem trabalhador, hoje casado e com dois filhos.

A recompensa não tardou: atualmente Jordene é o gerente do departamento técnico da empresa. Dentre suas responsabilidades está a de desenvolver produtos. "Todos os novos produtos passam pelo meu setor", afirma com orgulho. Para quem acha que a trajetória dele na fábrica se deu por intermédio de cursos, ele destaca que fez, sim, alguns aperfeiçoamentos no SENAI, Sebrae e Instituto Centro de Ensino Tecnológico (Centec). Mas "a maior parte de meu conhecimento foi adquirida no chão de fábrica mesmo", afirma. Nesse sentido, Jordene destaca a atitude da direção da empresa de sempre incentivar os profissionais que querem aprender. Até porque, como ele, não faltam histórias de jovens que poderiam ter deixado a cidade por falta de emprego. Hoje até podem fazê-lo, mas com a garantia de uma profissão para muitos. "Se não tivesse esse polo, só haveria duas opções para mim em Marco: continuar dando aula ou ter ido embora", arremata Francisco Jordene.




Autor:   Mkt L?gica
Fonte:   FIEC - LUIS HENRIQUE CAMPOS

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